Entrevista com
Veselin Topalov

Por Yurii Vasiliev
Tradução de Daniel Brandão

A conversa com o ex-campeão mundial Veselin Topalov aconteceu logo após sua vitória no super-torneio (cat. 21) de Linares. Desde 2005, esse é o 11º super-torneio que ele vence.

Em menos de dois meses Topalov jogará um match pelo título mundial com Anand. E se pensávamos que o búlgaro iria tentar confundir a análise do time adversário sobre si mesmo, ele teve sucesso. Ele jogou de forma bastante surpreendente, arriscada e até “baderneira”. Ele tomou decisões rápidas em situações bastante difíceis sem pensar muito se os sacrifícios que estava fazendo eram perigosos e entrando em duvidosas variantes forçadas. Ainda assim ele pôde analisar as sutis nuances de um final de torres aparentemente empatado e ganhá-lo! A segunda partida jogada contra Aronian (comentada pela GM Alexandra Kosteniuk no Chessdom) foi reconhecida como a mais bela e mereceu um prêmio de beleza especial: ambos os GMs receberam 27 litros do melhor azeite de oliva espanhol.

Veselin, sua maneira de jogar durante o torneio pareceu às vezes demasiado arriscada. Muitos especialistas concordam que você não jogará assim contra Anand. Era essa a intenção?
Como todos sabem muito bem, antes do match pelo campeonato mundial ninguém vai expôr sua preparação. Mas posso dizer que vencer um torneio tão forte não foi nada fácil. Claro, meu objetivo era obter um bom treinamento. Joguei com prazer e fiz os lances que eu gostei. Por exemplo, na partida do primeiro turno contra Grischuk, percebi que o sacrifício que eu fiz era muito perigoso, mas gostei do lance e fiz mesmo assim.
Não estou muito contente com a qualidade das partidas – das quatro que ganhei, posso dizer que houve apenas uma vitória do começo ao fim. Mas eu joguei de forma interessante e gostei de jogar assim.

Está tudo pronto para o match em Sofia?
Como pode haver dúvida quando o chefe do comitê organizador é o primeiro ministro da Bulgária, Boyko Borisov? O contrato foi assinado com os organizadores, com Anand e comigo. A primeira partida será em 23 de abril.

Onde será realizado o match?
Num dos salões mais bonitos de Sofia - o clube militar. Fica no coração da cidade, de frente para a Igreja Russa. Na época em que a Bulgária era uma monarquia, no salão onde jogaremos havia bailes que reuniam a aristocracia de toda a Europa. É um lugar muito bonito.

E onde se alojarão as delegações dos jogadores?
A equipe do Anand ficará no Hotel Hilton, onde Kamsky esteve durante nosso match, e a minha no Grand Hotel Sofia, onde os participante do M-Tel ficam.

O fundo de prêmios, conforme me informei, será um recorde para um match de campeonato mundial - se não contarmos o famoso match revanche entre Fischer e Spassky em 1992, quando a premiação foi de US$5 milhões.
Neste match o fundo de prêmios será de 2 milhões de euros, ou cerca de 3 milhões de dólares. Mas se Anand tivesse tomado qualquer atitude, o fundo poderia ser de 5 milhões. A Índia tem um grande mercado e Anand é muito popular por lá. Mas o campeão mundial preferiu aceitar uma situação pronta e se apresentar como vítima. É claro que ele não quer jogar na Bulgária, mas ele não teve escolha, já que foi de onde veio a melhor oferta.
Nós estávamos prontos para jogar na Índia, todo o match ou parte dele, mas Anand não moveu um dedo para fazer algo em relação a isso. No entanto, 3 milhões de dólares não é mau se lembrarmos que Kasparov estava pronto para jogar matches com Shirov, Ponomariov e Kasimdzhanov por 1 milhão - mas em nenhum desses matches foi possível levantar o dinheiro.

Há dinheiro público nesse fundo de prêmios?
Não, ele vem do setor privado, patrocinadores, mas garantido pelo primeiro ministro da Bulgária, Boyko Borisov, a quem sou muito grato, é claro, uma vez que ele teve uma partipação muito importante no processo.

O que você pensa do seu oponente?
Anand é um dos maiores talentos da história do xadrez. Ele tem 40 anos agora e por metade desse tempo ele foi um dos melhores do mundo. No entanto, devo observar que no México, onde ele ganhou seu título mundial, eu não participei devido à regulamentação da FIDE.
Sobre o match em Sofia, psicologicamente as coisas serão muito mais fáceis para Anand do que para mim. De mim todos esperam a vitória, enquanto dele – nada. Se ele perder, dirão: “ele jogou num país estranho”. Se ele vencer, ele é um herói.

Não há vantagem na sua posição?
Minhas vantagens consistem em uma vitória a mais que tenho em partidas clássicas contra Anand e cinco anos a menos. Ele está com 40, eu com 35.

Você acompanhou as partidas de Anand em Wijk aan Zee no começo do ano?
Claro, estudei as partidas. Ele pontuou +2 [dois pontos positivos na relação vitórias/derrotas, sem contar os empates - n.t.], sem dar muito de si. Me pareceu que, se ele quisesse, poderia participar da luta pelo primeiro lugar.

Vamos sair um pouco da esfera do match. Dizem que você é um homem popular na Bulgária.
Sim, claro. Fui até convidado para o programa “Dancing Stars”.

Você se sente uma “estrela”?
A Bulgária é um país pequeno. Há pessoas que podem se orgulhar de seus feitos, mas estrelas em nível internacional são poucas. Uma verdadeira estrela é Hristo Stoichkov. E agora Dimitar Berbatov.

Ele tem um primo, Kiprian Berbatov, que se tornou Mestre Internacional aos onze anos. Você vai convidá-lo para sua equipe, como Ponomariov fez com Karjakin quando este tinha 11 anos?
Eu sei que Kiprian Berbatov estará presente no match. Não pensei em convidá-lo para a equipe, mas vou pensar nisso.

Em Linares seus assistentes foram os holandeses Smeets e L’Ami – aparentemente eles estarão na sua equipe. E seu antigo assistente, Ivan Cheparinov, o famoso mestre das “novidades bomba”, também estará?
Vocês sabem, essas pessoas vão me ajudar na preparação para o match. Mas também haverão outros, que por razões óbvias, eu não irei divulgar. Claro, informação tende a vazar, mas não deixe que o adversário pegue isso das minhas mãos.


Fonte: ChessDom