Entrevista com
Evgeny Tomashevsky
Por Dejan Bojkov
Tradução de Daniel Brandão

Por favor, apresente-se aos leitores.
GM Evgeny Tomashevsky (Saratov, Rússia), nascido em 01/07/1987. Minha mãe é médica e meu pai professor e Doutor em Ciência da engenharia.
Quando você começou a jogar xadrez?
Comecei a jogar xadrez com 4 anos, em família. Em janeiro de 1994 pedi aos meus pais que me levassem a um clube de xadrez.
Quem foram seus primeiros treinadores?
Minha primeira treinadora foi a WMF Alexandra Shestoperova, e por muito tempo trabalhei com seu marido, o MI Alexey Shestoperov. Sou muito grato a essas pessoas que me ajudaram muito no meu processo de profissionalização como jogador de xadrez, mesmo com as dificuldades da década de 90 na Rússia.
Quais foram suas primeiras conquistas?
O primeiro sucesso veio em 1997 quando eu me tornei campeão russo sub-10 e consegui uma medalha de bronze no Campeonato Europeu da mesma categoria. Tenho várias medalhas de campeonatos de categorias da Rússia, da Europa e também de mundiais. Os mais importantes foram o título de campeão russo sub-18 (em 2001, com 13 anos) e a medalha de prata no mundial sub-18 em 2004. Me tornei MI em 2001 e GM em 2005. O que não pode ser considerado cedo, em comparação com as revelações atuais, mas não tive o apoio de patrocinadores no começo da minha carreira - felizmente esses problemas são muito menores hoje. Sou estudante da Universidade Estatal Sócio-econômica de Saratov e nosso reitor, Prof. Vladimir A. Dines, é um grande apoiador do xadrez. Estou me esforçando para estudar com seriedade, mas por enquanto me considero um profissional do xadrez.
Quais seus outros interesses?
Meu campo de interesses é grande – esportes e jogos intelectuais, literatura, ciência, cinema, música... eu adoro estar com amigos, em boa companhia, de comer bem. Eu evito manter o foco só no xadrez e acredito que a diversidade não é um problema na vida. No nosso jogo também não.
Com quem você trabalha hoje?
Hoje trabalho com o famoso GM Yuri Razuvaev. A parcela dele no meu sucesso recente é enorme. Ele tem o dom incrível de apontar o que há de principal em um problema, rara sensibilidade e, é claro, formidável erudição enxadrística. A união com Yuri Sergeevich foi uma dádiva.
Você teve algum auxiliar em Montenegro? Em Montenegro eu estava sem auxiliar. O Campeonato Europeu é muito respeitável, mas um treinador tem um custo muito alto.
Você teve alguma preparação especial antes do Campeonato Europeu?
Não, não preparei nada específico pro torneio em Budva, o intervalo entre o Aeroflot e este foi bastante curto. Até porque hoje é muito difícil você preparar especialmente para um torneio aberto. Se o torneio é round-robin ou eliminatório, quando você sabe antecipadamente quais serão seus adversários, é outra história. Eu apenas busquei ficar num bom estado de espírito antes do início do torneio.

Você mencionou o Aeroflot Open que você jogou pouco antes do Campeonato Europeu. O patriarca da escola soviética de xadrez, Botvinnik, aprovaria esta atitude?
Eu considerei o Aeroflot um bom trinamento para o torneio em Budva, uma vez que eu não jogava xadrez havia três meses – coisa rara entre jogadores profissionais. A opinião de Botvinnik tem relevância, sem dúvida (para mim, ele é um dos mais admiráveis jogadores de todos os tempos). No entanto, hoje em dia o calendário de eventos é muito denso e nós temos que jogar um torneio após o outro...
Você pontuou 8 em 11 na competição de Xadrez Clássico. Qual foi a partida mais difícil? Em uma de suas partidas o lendário Ulf Andersson não apareceu. Você sabe por quê?
A partida mais importante pra mim foi justamente a partida não jogada com Ulf. Essa afirmação paradoxal requer uma explicação: no último Campeonato Europeu, em Plovdiv, eu joguei muito mal e não senti o gosto da vitória. Aqui comecei com 2 em 2, mas aí vieram 4 empates sem vida. Isso esfriou meu entusiasmo e eu comecei a ver um lampejo do “fantasma de Plovdiv” no horizonte. Nessas situações você pode acabar perdendo a confiança no seu potencial agressivo. Para ter de volta meu equilíbrio mental eu precisava urgentemente vencer. Por isso a preparação contra ele foi muito tensa e na manhã que precedeu o confronto eu estava mais ansioso que o normal e senti uma fadiga nervosa. Como ele não apareceu fiquei +3, a apenas uma vitória de distância da classificação para a Copa do Mundo. Então relaxei e joguei o resto do torneio com confiança – empates relativamente tranqüilos com pretas e vitórias com brancas.
Para ser justo, tive muita sorte ao ganhar o ponto sem jogar – com isso ganhei um dia livre adicional. É difícil pra mim saber por quê Ulf não apareceu pra jogar, mas outras pessoas me disseram que este estava longe de ser o primeiro caso em sua carreira...
Qual partida você gostou mais?
Não posso dizer que produzi obras-primas nesse torneio. Gostei de partes isoladas das partidas contra Artashes Minasian e Sanan Sjugurov, assim como a razoável vitória sobre Anton Shomoev. Mas, surpreendentemente, na minha opinião a melhor partida que joguei no torneio foi durante o desempate contra Vladimir Malakhov, no primeiro confronto do match.
Nas partidas rápidas você mostrou que tem nervos de aço. Você se exercitou em partidas de relâmpago?
Obrigado pelo elogio, mas não creio que seja merecido. Meus nervos foram exigidos ao máximo durante o desempate. Provavelmente pouco menos do que os nervos dos outros. Não costumo jogar partidas de relâmpago frequentemente, apenas poucas vezes. Minha auto-estima nas partidas de relâmpago varia. Às vezes penso que sou forte nas partidas rápidas, outras que sou muito fraco. Estou chegando à conclusão de que nessas partidas o que vale é a motivação e o ânimo. Em um bom estado psicológico e alta concentração sei que posso dar trabalho pra qualquer reconhecido ‘mestre' em partidas rápidas.
Em geral, o que você pensa de um sistema de competição em que, após onze exaustivos dias de partidas clássicas, o campeão é determinado em partidas de xadrez rápido?
Naturalmente, esse sistema não é o ideal. No entanto, os critérios de desempate como o Berger e o Bucholz também tem defeitos. Por exemplo, o campeão pode ser definido por uma partida realizada no tabuleiro 100. Pensemos em futebol: as pessoas criticam decisão por pênaltis, chamam de loteria. Mas até hoje não se encontrou nada melhor. Em geral, penso que partidas rápidas para definir o campeão em um desempate não é a pior das alternativas. Aliás, outros sistemas são possíveis, mas o importante é que não mude durante o torneio.
No primeiro confronto do match contra David Navara você pretendia repetir a posição três vezes?
Falando francamente, eu joguei a partida contra o Navara muito mal. Meu jogo frouxo com as brancas não me trouxe nenhuma vantagem e eu não me importaria em repetir as posições. No entanto, próximo ao apuro de tempo eu forcei o empate. Na segunda partida eu estive a um passo de ser eliminado. A partida teve muitas mudanças bruscas: em um momento eu estava inferior, então fiquei ganho, depois completamente perdido e venci no final. Esse confronto se tornou o primeiro em uma série progressivamente emocionante.
Você se recuperou após perder a primeira partida do segundo match, contra Baadur Jobava. O que lhe ajudou a manter a tranquilidade?
Eu acredito que Baadur jogou suas chances fora sozinho. Provavelmente ele não conseguiu agüentar a pressão. Ele começou a jogar o desempate nas oitavas de final, mas, reconhecidamente forte nas partidas rápidas, era um dos favoritos. E, como acontece seguidamente, ele fundiu os nervos a um passo do fim. Eu consegui me manter calmo pois não havia nada a perder.
Você ganhou a partida “Armaggeddon” com brancas. Você escolheu a cor?
Eu tive sorte nesse caso também – em ambos os casos eu pude escolher as cores nas partidas de morte súbita. Na minha opinião, ter as brancas é muito mais vantajoso – o minuto adicional tem uma diferença gigantesca. O empate em partidas desse tipo é muito improvável. A partida contra Baadur foi a primeira “Armaggeddon” que joguei em minha vida e eu tive a chance de testar minha teoria na prática. A prova me pareceu muito convincente.
Você atuou muito bem com as brancas. Você é o típico jogador 'brancas'?
Uma questão curiosa, mas tem procedência. Minhas estatísticas com brancas são muito boas. Os dois últimos anos, após o Aeroflot 2007, eu perdi apenas uma partida com brancas e tive um bom índice de vitórias. A parte engraçada é que nunca considerei minhas aberturas com brancas muito poderosas. De regra, o resultado positivo vinha após as aberturas, no meio-jogo. Só ultimamente tenho pressionado no começo da partida.
No último match você começou com uma vitória sobre seu compatriota Vladimir Malakhov, mas então perdeu com brancas. O que exatamente aconteceu na segunda partida?
Como já mencionei, a primeira partida me deixou uma profunda satisfação do ponto de vista criativo. Na segunda partida eu não quis jogar de forma “seca”, eu queria ser campeão em uma luta de verdade, vencendo por 2 x 0. Acho que a partida foi notável, uma vez que Vladimir também jogou de forma criativa. Até agora não tive nervos para analisá-la, mas me disseram que eu poderia ter vencido em um dado momento. Porém chegamos a um final de torres em que o branco poderia empatar com mínima dificuldade. E com isso veio o desastre. Eu simplesmente esqueci do relógio e perdi no tempo! Isso foi um baque. Sabe o que significa você perder apenas 1 em suas últimas 80 partidas com brancas e, quando precisa de um empate, você perde? Por tempo?? Jogar o “Armaggeddon” depois disso foi muito difícil. Não tínhamos mais que pensar em xadrez de qualidade.
Finalmente, nos conte sobre esse confronto decisivo. Felizmente para mim, Vladimir, depois de tanta tensão nervosa (ele também começou nas oitavas de final) não se sentia muito bem. Assim as coisas terminaram de forma mais do que inesperada: ele pendurou uma torre ao invés de aplicar mate em 7. Eu senti como um homem que ganha na loteria, não em um torneio de xadrez. Eu gostaria de aproveitar a oportunidade para enaltecer a atitude de Vladimir: ele aceitou a derrota de forma magnífica, se portou como um legítimo cavalheiro.
Como estava a organização em Montenegro?
A opinião geral foi de que a organização deste foi a melhor da história dos Campeonatos Europeus. Mesmo que eu não tivesse conquistado o título, eu apoiaria a opinião em cem por cento. Tudo estava perfeitamente organizado, até nos pequenos detalhes, e a atitude dos organizadores em relação aos participantes foi afável e honrosa.
Li em revistas russas que seus colegas chamam você de “professor”. Por quê?
Não apenas meus colegas, mas meus amigos também. Provavelmente há várias razões para isso. Primeiro por causa dos meus óculos. Depois porque meu pai é professor e muitos sabem disso. E, por último mas não menos importante, às vezes começo a dissertar sobre filosofia e moral.
Você é uma das esperanças russas de sangue novo no esquadrão olímpico. Quais são as chances reais de você participar da equipe? A Rússia é, provavelmente, o único país no mundo em que o Campeonato Europeu não lhe dá (objetivamente!) um lugar na equipe nacional. Nós temos suficientes jogadores de alta classe. Mas jogar na Olimpíada é meu sonho, e estou pronto pra trabalhar por isso.
Você espera convites para super-torneios após este sucesso?
Como a prática mostra é melhor não contar com isso. O Europeu individual não é uma conquista de tal calibre que possa imediatamente impressionar os organizadores de super-torneios. Eu não estou iludido com propostas de grandes torneios, mas estou pronto para considerar qualquer proposta.
Você é o campeão europeu mais jovem da história, quais são seus planos para o futuro?
Planos eu tenho muitos. Eu gostaria de desenvolver minha vida pessoal e carreira no xadrez, me formar com dignidade. Mas meu sonho é ter as pessoas que me rodeiam sempre felizes. É também o que desejo aos leitores!

Obrigado pela entrevista. Esperamos ver você em super-torneios em breve!
Fonte: ChessBase



