Entrevista com
Garry Kasparov

Por Edwin Lam Choong Wai
Tradução de Daniel Brandão

"A entrevista com Garry Kasparov durou 40 minutos", diz Edwin Lam. "Se seu assessor não tivesse nos interrompido ele teria seguido por horas; Eu ainda posso ver em seus olhos o brilho enquanto ele falava sobre Carlsen - estava radiante, e vi muita paixão quando falávamos sobre o assunto. Devo dizer que eu mesmo aprendi muito com ele durante a entrevista, sobre a vida, trabalho e, em conjunto com um livro sobre teoria dos jogos que eu estava lendo (A Arte da Estratégia), isso remoldou minha maneira de pensar sobre trabalho e a melhor abordagem em relação a ele."

Parte I

Garry Kasparov fez sua primeira viagem à Kuala Lumpur, Malásia, em novembro de 2009, para discursar no Youth Engagement Summit 2009 [um encontro de jovens interessados em soluções globais inovadoras - n.t.]. Tive a oportunidade de me encontrar com o melhor jogador da história do xadrez para uma "Bisik-Bisik session" no Putrajaya Convention Center. Nossa entrevista de 40 minutos cobriu uma variedade de tópicos. Na primeira parte da entrevista, Garry falou sobre seus recentes discursos na Ásia, seu encanto pela Malásia, os anos de crescimento e, o mais importante, sua parceria com Magnus Carlsen.

Bisik-Bisik é uma palavra do vocabulário malaio que significa "cochichar" de uma pessoa a outra. Nas minhas entrevistas procuro "cochichar" aos leitores o lado então desconhecido dos entrevistados.

EL: É sua primeira viagem à Malásia?
GK: Sim, é minha primeira viagem à Malásia. 2009 foi o ano em que estive na Ásia. Devido ao desequilíbrio na distribuição de eventos de xadrez, viajei muito pela Europa, visitando muitos países, diversas vezes. Também estive nos Estados Unidos, Canadá, México e vários países da América Latina, mas nunca na Ásia, com exceção da viagem às Filipinas para jogar nas Olímpiadas de 1992. É difícil imaginar e as pessoas não acreditariam se eu dissesse que, antes de 2009, o país das Filipinas era o único asiático que eu já havia visitado. Mas é verdade! E apenas neste ano já fiz duas viagens à Índia, uma a Déli e outra a Mumbai. A viagem a Mumbai foi há duas semanas atrás para uma conferência geral da IBM e agora é a Malásia. Definitivamente, estou cobrindo novas áreas no mapa!

EL: Você chegou à Malásia dois dias atrás com sua esposa. Você teve oportunidade de ir à Kuala Lumpur?
GK: Não, não, ainda não. Minha mulher e eu gostamos do que vimos até agora aqui em Putrajaya, a capital administrativa da Malásia. Fomos ao parque aqui em Putrajaya ontem e é bem limpo, organizado. Vimos uma mistura étnica muito interessante na população malaia. A outra coisa que observamos é que no parque 40% das tendas era de alimentação para crianças. Isso é interessante para mim que estou envolvido com política, é sempre interessante ver como as pessoas se comportam em ambientes públicos e a atmosfera do parque no sábado, com várias pessoas de classe média e suas famílias. É interessante e a visão é bem positiva. Notamos também outra coisa: as cores das roupas vestidas pelos malaios são bem alegres. É uma mudança refrescante em relação à Europa e aos Estados Unidos no inverno. Até agora, fomos bastante inspirados pela atmosfera em geral - é uma atmosfera positiva e as pessoas são amigáveis. Tenho certeza que há outras partes da Malásia, especialmente Kuala Lumpur, em que poderemos ver mais diversidade. Mas até agora a experiência em Putrajaya foi muito boa. Iremos à Kuala Lumpur amanhã, depois do discurso de 18 de novembro. Temos que ver as torres gêmeas, sem dúvida. Senão será bem estranho, sabe. Graças à programação dos vôos - não há vôos diários para Moscou - ficaremos presos aqui mais um dia, e isso é uma boa notícia para nós.

EL: Vamos falar um pouco sobre crescimento e xadrez. Quais foram os fatores que te impulsionaram até a excelência no jogo? Como você descobriu que essa era sua verdadeira paixão?
GK: Meu desenvolvimento precoce certamente é devido em grande parte à determinação de meus pais. Minha aptidão natural ao xadrez foi rapidamente percebida pela minha família. Meu pai, Kim, na época lutando contra a leucemia, tomou a decisão de me mandar para a escola de xadrez aos sete anos e minha mãe apoiou a idéia enfaticamente. Internamente, é claro pra mim que eu não teria alcançado tanto sucesso em qualquer outra coisa que não fosse xadrez. Preciso agradecer à sorte pelo jogo ter vindo a mim naturalmente, seus requisitos encaixando em meus talentos como uma luva.

EL: Olhando para sua própria experiência passada, e vendo como as crianças de hoje começam cedo no xadrez - algumas aos 4 ou 5 anos de idade -, você acha que é prematuro, dado que você começou aos 7 anos?
GK: Eu não acho que seja muito cedo nem muito tarde para começar a aprender xadrez. Ao invés disso, é uma questão de objetivo com o aprendizado do jogo. Eu acredito que o xadrez pode representar um papel muito importante na educação de uma criança na medida que melhora a visão das coisas ao seu redor. Muitas delas, na verdade 99,9% delas, não vai irá jogar mais tarde em sua vida. Mas, ainda assim, o xadrez é muito útil se empregado em seus currículos escolares. Se a criança demonstrar interesse aos 4 ou 5 anos, ótimo. Eu acredito que é preciso ajudar as crianças, guiá-las, mas você não pode forçá-las a fazer algo que elas não gostam. Por exemplo, meu filho não quer jogar xadrez. Ele não tem interesse e não há nada que eu possa fazer em relação a isso. Ele aprendeu a jogar quando tinha 5 ou 6 e não demonstrou interesse em especial. Ele não demonstrou nenhuma paixão pelo jogo. Enquanto temos o importante papel de tentar orientar as crianças para que não sofram influência forte de jogos modernos, pouco inteligentes, temos que entender também as limitações de nossa interferência. O ponto é achar o equilíbrio entre influenciá-los sem ser muito desagradáveis a ponto de gerar uma reação contrária. Isso é válido em qualquer forma de relação humana, seja no trabalho em equipe ou numa relação de pai e filho.

EL: Na sua opinião, um jogador menos talentoso pode ter sucesso no xadrez, se tiver uma forte paixão pelo jogo e um plano elaborado para chegar lá?
GK: Eu escrevi no meu livro, "How Life Imitates Chess" [publicado no Brasil como "Xeque-mate: A vida é um jogo de xadrez" - n.t.], que trabalho duro é parte do talento individual. Às vezes acho difícil de entender o que alguém quer dizer com "ele, ou ela, é talentoso, mas preguiçoso". Para mim, isso mostra que há simplesmente uma grande falha no caráter dessa pessoa. Trabalhar duro é uma forma de talento - de fato, uma parte muito importante do talento de alguém. Sem trabalho duro, como pode sua capacidade natural se lapidar? É por isso que eu penso que trabalhar duro é às vezes tão importante como ter talento. É claro, devo admitir que será difícil para alguém sem um grande talento se tornar campeão mundial. Mas ainda assim é possível subir muito alto e conquistar muita coisa, mesmo com talento limitado. Evidentemente, quando eu digo "talento limitado", não se confunda com o termo. As pessoas podem se confundir na medida que talento pode significar qualquer coisa, sabe. Ser o número um da sua escola também exige algum talento. Ser o número um do mundo também requer talento, mas são formas diferentes de talento. Dito isso, sou um grande proponente do conceito de que a habilidade de trabalhar duro é um talento único, e se você for capaz de trabalhar duro, e puder dedicar muitas horas, e ainda conseguir se concentrar no objetivo, e se for apto a fazer planos bem elaborados, você ainda pode estar à frente do seu concorrente mesmo que seja menos talentoso ou dotado naturalmente - seja no xadrez ou em qualquer outra coisa -, simplesmente porque ele ou ela não é tão eficiente em organizar seu trabalho.

EL: Todos temos ouvido sobre sua parceira com o excepcionalmente talentoso Magnus Carlsen. Quando essa parceria começou?
GK: Eu o encontrei em Oslo, em 2005. Eu estava lá filmando um documentário e passamos algumas horas juntos. Depois que eu parei de competir, Magnus foi a Moscou com seu pai e passamos um dia juntos, talvez, e só. Pelos 4 anos seguintes, não tivemos contato exceto quando enviei a ele meu livro, Meus Grandes Predecessores, volumes 1 e 2, por meio do Frederic Friedel, do ChessBase. Restabelecemos nosso contato no último Natal, novamente via Frederic, porque havia um interesse da parte do Magnus na oportunidade de progredir, já que ele sempre conviveu com o problema de não ter um treinador de verdade - alguém que pudesse organizar as coisas de uma forma mais eficiente. E ele precisa de mais recursos para jogar no nível mais alto. Eu quero dizer que ele já é muito bom em vencer GMs intermediários e até os fortes GMs. Mas para se tornar o número 1 é preciso mais do que talento, e eu fiquei bastante interessado. Então estabelecemos essa comunicação e conversamos por um tempo. Durante Wijk aan Zee 2009, conversamos algumas vezes por telefone. Isso foi o começo. E antes de Linares 2009 tivemos apenas uma rápida sessão. Tecnicamente, em Linares, eu já ofereci alguma orientação, mas não foi de forma plena porque eu também precisava de tempo para preparar isso. Apesar do meu trabalho contínuo com xadrez e a constante atualização da minha base de dados, eu estava obviamente um pouco atrás. Eu também precisava recuperar meu instinto competitivo e levou um pouco de tempo até começarmos a trabalhar juntos. Quando chegou o verão, tivemos uma boa sessão na Croácia. E então tivemos outra em Oslo. Aceitei, também, a oportunidade de jogar o match com Karpov porque recuperei meu instinto para o jogo depois de trabalhar com Magnus, recuperei meus sentidos. E logo após nossa sessão de treinamento em Oslo, ele jogou muito bem em Nanjing. E após o torneio em Moscou ele é, extra oficialmente, o número 1. Ainda é uma margem muito pequena. Eu espero que Londres seja mais um sucesso para ele - um verdadeiro sucesso, de forma que ele encerre o ano como o destacado número 1 na lista de ratings oficial [a entrevista foi concedida antes do supertorneio de Londres que Carlsen de fato ganhou, em dezembro de 2009 - n.t.].

Ainda há muito trabalho a ser feito. Quero dizer, ele demonstrou enorme progresso e resistência ultimamente. Ele estava bastante doente em Moscou e até considerou se retirar do torneio depois da segunda rodada. Quer dizer, discutimos isso seriamente com seu pai e seu médico. Ele teve febre alta e nas rodadas 3 e 4 ele jogou se sentindo muito mal. Ele estava seriamente doente, se recuperou apenas gradualmente antes da sexta rodada, depois da partida com Anand. Mas ainda não estava bem. Até na última rodada ele teve algumas complicações e isso foi muito difícil. E eu fiquei muito orgulhoso por ele ter conseguido uma pontuação +2 no torneio, mesmo naquelas condições terríveis. Isso mostrou que ele está ficando mais forte. É uma demonstração de seu caráter, fazer acontecer não apenas em torneios como Nanjing, mas também quando se está fora de condições. Acho que ele está ficando mais durão e tenho boas expectativas em relação ao futuro desta perceria. Acho que é importante para o xadrez ter alguém como Magnus Carlsen para dar uma nova "cara" e estimular o mundo. Ele é um homem jovem, sem os defeitos do mundo "velho" do xadrez. Ele é um representante da nova geração, com uma abordagem flexível e ele pode atrair seguidores para o xadrez. Os atuais líderes do xadrez não são muito ativos em promover o jogo e não estão encorajando as novas gerações a se integrar. Eu espero que as coisas possam mudar com Magnus.

EL: Treinadores costumam acompanhar seus pupilos em torneios. Com sua agenda carregada, como você ajuda Magnus durante as competições?
GK: Skype. Nós usamos Skype. Skype é mais conveniente. Podemos até enviar bases de dados rapidamente, sabe, qualquer base. É simplesmente Skype.

EL: Então as tecnologias modernas ajudam bastante, não é?
GK: Mas, ainda assim tenho que admitir que Skype e computadores não são e não podem ser considerados substitutos equivalentes a sessões de treinamento normais. Um dos problemas do torneio de Moscou foi que Magnus e eu não conseguimos achar tempo para uma sessão normal antes do evento. Ele estava ocupado na Noruega e eu estava em Mumbai. Mesmo três dias, sabe, movendo as peças, e as coisas podem ser muito, muito diferentes. Antes de Londres definitivamente teremos uma sessão. Não há dúvidas.

EL: Sua parceria com Carlsen é um indicativo de sua intenção de montar a Escola de Xadrez Kasparov, mais adiante?
GK: Eu nunca parei de trabalhar com xadrez e projetos educacionais e tentei isso em vários países. A tentativa de maior sucesso foi nos Estados Unidos. A Kasparov Chess Foundation foi fundada em 2002 e tivemos um mantenedor muito generoso que nos deu suporte todos esses anos. Elaboramos um organograma que é usado nos 50 estados, principalmente, é claro, em Nova Iorque, Nova Jersey, Connecticut bem como em Chicago e no Texas. Tecnicamente, estamos em todos os 50 estados, em mais de 3000 escolas e estamos ensinando professores a ensinar xadrez. Acreditamos que professores que já estão nas escolas precisam apenas de algumas lições simples sobre como ensinar o jogo porque é mais importante ser um professor do que um jogador na sala de aula. E, novamente, nosso conceito é de que o xadrez é uma forma barata mas muito eficiente de melhorar a educação. Além disso, a Kasparov Chess Foundation tem ajudado ativamente talentos americanos nos últimos anos. Também temos patrocinado competições juvenis semi-profissionais como o All-Girls US Championship [algo como "Torneio geral de meninas dos Estados Unidos" - n.t.], enquanto a Universidade do Texas está fornecendo bolsas aos vencedores. Duas vezes por ano realizamos sessões especiais com crianças, as mais talentosas. A próxima será em dezembro, pouco antes do Natal. Começamos com muitos, uns 30, e agora temos cerca de 10 a 12 crianças. Analisamos suas partidas. É tudo muito da tradição soviética que agora instalamos nos Estados Unidos. Como você vê, nunca parei de trabalhar nesse nível. Mas, sobre parceria profissional, minha resposta é "não". Quero dizer, se você trabalha com um jogador como Magnus, você não pode trabalhar com mais ninguém. Eu também não tenho interesse nisso porque já que estou muito satisfeito trabalhando com Magnus. Trabalhando com as crianças por meio da Kasparov Chess Foundation, assim como com Magnus, mantenho minhas perícias enxadrísticas vivas. E é uma mudança renovadora, seguindo o conselho de minha mãe, manter a cabeça funcionando e não se deixar aborrecer ou cansar, simplesmente alternando entre uma área e outra. Então você não fica preso na política ou nos discursos. Eu quero dizer, jogando xadrez, ou trabalhando com xadrez - e eu ainda estou trabalhando nos livros, sabe, o terceiro volume de todas as minhas partidas com Karpov, nesse ano, e no próximo ainda estarei trabalhando em mais três volumes das melhores partidas de Garry Kasparov. Mas, sabe, realizar o trabalho que venho fazendo com Magnus é também muito renovador. E eu estou muito feliz. Não é que eu sinta que estou lá fazendo os lances, mas às vezes sinto que estou pessoalmente preparando para Kramnik ou Anand. E é legal, é muito bom. Trabalhando com crianças no nível de 2300-2400 na Kasparov Chess Foudation é uma coisa. Agora, trabalhar com um jogador 2800 é outra história.

Parte II

Nessa segunta parte, Garry fez um passeio por sua memória para falar sobre as preparações pro seu primeiro match com Karpov e o recente match de exibição de aniversário do "K-K".

EL: Você é muito conhecido por seu intensa, detalhada e profunda preparação - especialmente em seus matches contra Karpov. Como 2009 é o 25º aniversário do primeiro match "K-K" talvez você pudesse usar o match contra Karpov para ilustrar a profundidade e amplitude da sua preparação às vésperas daquele confronto?
GK: Jogar um match valendo o título contra o próprio campeão mundial era fundamentalmente diferente de qualquer outro match de candidatos anterior. Eu sabia que estaria, então, frente ao campeão mundial, um lutador que é o mais experimentado no alto nível com um limiar de resistência muito diferente. O match de 1984 foi um daqueles sem limite máximo de partidas - o vencedor seria aquele que alcançasse 6 vitórias primeiro. Uma vez que Karpov havia perdido muito raramente na época, para vencer o match eu sabia que teria que fazer lances de alta qualidade regularmente, e isso requer preparação muito mais séria. Tive um período de 5 meses antes do match para descansar e preparar para o teste do desconhecido. Contei com um grupo de treinadores - Nikitin, Shakarov, Vladimirov e Timoschenko -, para me acompanhar na preparação. Dorfman me ajudou a partir do começo do match, enquanto Adorjan participou da última sessão de treinamento pré-match. Esse era um time bem pequeno se comparado aos recursos que Karpov tinha, mas ainda assim, o que importou é que tínhamos um plano para preparar-nos para o match.
Inicialmente, meus treinadores e eu olhamos para as partidas de Karpov e pintamos um retrato dele do ponto de vista competitivo e criativo, pegando os pontos fortes e fracos de sua maneira de jogar. Depois disso, compilamos uma lista das aberturas com maior probabilidade de surgir no match, dando preferência às variantes que conduziam a complicadas e às vezes intrincadas posições. Daí então, começamos preparações concretas em relação às aberturas. Essa é a parte mais importante da preparação para qualquer match de xadrez, e nosso trabalho nesse sentido incluiu estudar uma série de variantes para brancas e pretas oriundas da mesma abertura. Todo esse trabalho, resultado de horas e horas de prolongado processo criativo em conjunto com meus treinadores altamente capacitados durante um período de 5 meses, me ajudou muito na situação crítica que surgiu logo após o começo do match. Mas os maiores frutos dessa preparação pré-match foram, acima de tudo, minha capacidade de começar o match com Karpov com uma abordagem criativa na hora de resolver problemas - no tabuleiro - em uma ampla gama de aberturas, bem como a prontidão, de minha parte, em aceitar o debate com Karpov em qualquer abertura nas mais variadas situações.

EL: No match de 1984 contra Karpov você se mostrou inferior na luta dinamismo versus vantagens de longo prao. Você se aprimorou e um ano e meio depois, no match de 1985, você era um novo homem. Quais planos, especificamente, você priorizou para este match?
GK: Um dos principais desafios da equipe Kasparov era o tempo. Nós concluímos que tínhamos pouco tempo e começamos as preparações praticamente no dia seguinte a decisão de Campomanes sobre o match. Montamos uma programação de 6 meses que incluía descanso e trabalho independente, além de três sessões de vinte dias com meus treinadores. Aí que continuamos nosso trabalho nas aberturas, juntamente com o aperfeiçoamento da minha técnica posicional. Também incluímos na preparação algum exercício físico, como correr descalços na praia, nadar no mar, pedalar e jogar futebol. Os meses do verão passaram bem rápido e em setembro de 1985 o match com Karpov iniciou. Eu me senti muito mais confidente do que um ano atrás. Eu tinha ficado mais forte e resistente e meu estilo de jogo estava mais equilibrado, universal. Minha reserva de idéias para as aberturas foi profundamente renovada e eu estava absolutamente preparado para uma nova luta contra o poderoso Karpov!

EL: Em 1972 Fischer era conhecido por sempre carregar um caderno vermelho, onde quer que fosse, com as partidas de Spassky. Isso representou o cúmulo da preparação no xadrez. Você poderia dividir conosco o que você pensa ser ideal na preparação de um profissional do xadrez nos dias de hoje, para uma determinada competição?
GK: Você não pode preparar sem o computador. No xadrez moderno você precisa estar constantemente atualizado com todas as melhoras. Agora que estou trabalhando com Magnus, Alexander Shakarov e eu sempre vamos ao TWIC e damos uma olhada nas partidas - em todas as relevantes. Você tem que acompanhar, tem que atualizar a base de dados e estar ciente das melhoras. E isso é somente para os torneios em geral. Já para torneios grandes como o de Moscou, estou sempre acompanhando. Você não pode ficar pra trás. Não é como há vinte anos atrás, quando você sabia que tirava vantagem por conhecer uma partida que foi jogada em algum lugar onde ninguém ficou sabendo. Hoje, em uma semana, em 24 horas, ao vivo, as pessoas podem ver as partidas. Então é por isso que você tem que ser muito criativo, porque todos tem acesso à mesma informação. Sua criatividade é mais importante, porque você tem que processar essas partidas e inventar algo novo.

EL: Pulando para 2009. O que você pensa a respeito do recente match K-K?
GK: O match K-K em Valencia foi um grande acontecimento. Mas é uma pena que o match K-K foi mais uma vez o maior acontecimento do mundo enxadrístico. Isso mostrou que o mundo do xadrez não teve real progresso pois, se o nostálgico match K-K em 2009 teve mais repercussão do que o match pelo campeonato mundial entre Anand e Kramnik, é algo ruim para todos o ambiente do xadrez. Quero dizer, você não imagina que um match entre Borg e McEnroe hoje possa ter mais repercussão do que outro, digamos, entre Federer e Nadal. Há algo errado e eu acho que o mundo do xadrez está estagnado. Eu joguei o match com Karpov para dar alguma notoriedade ao jogo e reconstruir os bons velhos tempos quando o xadrez era realmente popular e ocupava a capa de todo grande jornal no mundo. Eu gosto da experiência, apesar de o match não ter lá grande importância.

Eu acho que Karpov estava um pouco fora de forma. Bem, não que eu esteja na minha melhor forma. Digo, Kramnik nos taxou de "enferrujados" depois da simultânea em Zurique. Ele está certo, e eu não estou em condição de contrariar sua avaliação uma vez que Karpov jogou por 7 horas e meia e eu joguei por 6 horas e 15 minutos. Mas uma coisa que Kramnik esqueceu de mencionar é que eu fiquei com a simultânea mais forte - aquela com melhor rating médio, maior que a de Kramnik, Anand e Topalov. Eu também não perdi nenhuma partida, concedi apenas 4 empates. Essas são pequenas coisas que ele deveria mencionar. Mas, novamente, eu não estou tentando fingir que estou tão bem como a 20 anos atrás. Dito isso, não perdi nada na simultânea.
Para mim, jogar em simultâneas é como uma compensação por não estar jogando xadrez. Então, quando jogo uma simultânea eu levo muito a sério e se há adversários fortes eu quero vencê-los. Por exemplo, na exibição em Zurique em que empatei em quatro tabuleiros, eu venci os três melhores, todos eles com mais de 2300. Venci os três melhores e joguei partidas razoáveis. Kramnik citou uma dessas partidas, dizendo que era uma boa posição. Ele está certo, provavelmente estou enferrujado se comparado a meus melhores anos, mas ainda assim sou capaz de achar bons lances.

Uma partida da simultânea em Zurique, por Garry Kasparov

Depois da simultânea mencionada acima - realizada em Zurique em agosto de 2009 -, a equipe ChessBase solicitou a Kasparov que mostrasse uma de suas partidas. Ele consentiu, selecionando uma partida contra um jogador de rating 2000. Com a partida ainda fresca em sua memória Kasparov analisou com Matthias Deutschmann, um enxadrista da Bundesliga Alemã, que tomou notas durante a sessão. Deutschmann é um conhecido humorista e artista de bar que forneceu a voz em alemão para o programa Fritz.

Kasparov - N.N. (Board 8) (2000) [A31]
Zurich 200 Year Jubilee simul, 22.08.2009 [Deutschmann, Matthias]

1.d4 Cf6 2.c4 c5 3.Cf3 cxd4 4.Cxd4 e5 5.Cb5 d5 6.cxd5 Bb4+
O próprio Kasparov jogou 6...Bc5 nessa posição.

7.C1c3 0-0 8.a3 Bc5 9.Ca4! Bb6 10.Cxb6 Dxb6 11.Cc3
Fritz prefere a linha 11.e4 Cxe4 12.Be3 Dd8 13.Dc2 Bf5 14.Bd3 Dd7 15.Tc1 Ca6 16.Cxa7 Dxd5 17.Re2 Tfd8 18.Thd1 Cxf2 19.Bxf2 e4 20.Bb5 Bg4+ 21.Re1 Bxd1 22.Txd1, mas o recuo do cavalo de Kasparov é simples e bom!

11...Bf5 12.e3 Ca6 13.f3 e4 14.g4 Bg6 15.f4 h5 16.f5 Bh7 17.g5 Cg4 18.Dd4 Tfe8
18...Cc5 19.Be2 (19.h3 Dd6 20.hxg4 Dg3+ 21.Rd1 Df3+ 22.Rc2 Dxh1 23.Bd2 Tac8)

19.Bb5 Ce5 20.0-0
[20.Dxb6 axb6+–]

20...Cf3+ 21.Txf3 Dxd4 22.exd4 exf3 23.Bxe8 Txe8 24.Bf4
Uma alternativa considerada por Kasparov foi 24.f6 gxf6 25.gxf6 Te1+ 26.Rf2 Th1 27.Rxf3 Tf1+ 28.Rg3 Txf6 29.Bf4+–.

24...Bxf5 25.Rf2 b5 26.Be5?
Um auto-crítico Kasparov deu a este lance um ponto de interrogação. Melhor seria 26.b4 "cortando o cavalo!" (Kasparov); 26.Cxb5 Te2+ 27.Rxf3 Bg4+ 28.Rg3 Txb2 29.Cxa7 Tb3+ 30.Rg2 Bf3+ 31.Rg1 Bxd5 32.Cc8. Nessa variante o negro ainda teria algum jogo.

26...b4
26...Bg4 27.Rg3 f6 28.gxf6 gxf6 29.Bxf6 Tf8 30.Be7 Tf7 31.Bc5+–.

27.Cb5?!
"Não é a melhor continuação." O que há de errado em simplesmente tomar o peão em b4? 27.axb4 Cxb4 28.Rxf3 a6 29.Ta4 Cd3 30.Txa6 Cxb2 31.Ce4 Bg6 32.d6+–.

27...Tc8?!
27...Bg4! 28.Cd6 Tb8 29.axb4 Txb4 30.Ta2 (30.Txa6? Txb2+ 31.Rg3 Tg2+ 32.Rf4 f2–+) 30...Cb8 31.h3 Bxh3 32.Txa7 Txb2+ 33.Rxf3 Bg2+ 34.Re3 Bxd5 35.g6 Tb3+ 36.Rd2 fxg6 37.Txg7+ Rf8=.

28.Rxf3 Tc2 29.Bd6 Txb2 30.axb4 Cxb4 31.Bxb4 Txb4 32.Cd6 Bg4+ 33.Re4 Tb2 34.Txa7 Te2+ 35.Rd3 Txh2

36.g6!!
Muito elegante e digno de estudo! Para uma partida jogada em simultânea isso é sensacional. É interessante ver quanto tempo os programas modernos levam para encontrar essa linha.

36...fxg6 37.Ra8+ Kh7 38.Nf7 g5 39.Rh8+ Kg6 40.Ne5+ Kf5
[40...Kf6 41.Nxg4++–]

41.Rf8# 1-0.

Parte III

Nessa terceira parte Kasparov respondeu questões sobre um possível retorno, sua família política e uma nova variação do Fischer Random.

EL: Temos visto recentemente que esportistas que se retiraram retornaram à ativa - Lance Armstrong, por exemplo. E sobre você? Alexander Morozevich acredita na sua capacidade de recuperar a velha competitividade. Você já pensou em um retorno?
GK: Sou muito, muito grato a ele e fico lisonjeado. Mas, não, não tenho planos de voltar. Acho que ele está ao mesmo tempo certo e errado. Penso que minha força enxadrística ainda é razoável. Se eu pudesse gastar 3 ou 4 meses em constante prática, deixando todo o resto de lado, poderia realizar um retorno pelo menos ao xadrez rápido. Não tenho certeza sobre xadrez pensado, mas no rápido certamente poderia enfrentar Kramnik ou Anand. O problema é que isso não é viável no sentido prático. Tenho uma vida diferente. Já passei do ponto do retorno pois não posso parar o que estou fazendo na Rússia e não posso parar com minhas apresentações. Eu tenho uma vida diferente agora. Essa foi minha escolha, espontaneamente, e estou muito contente com essa escolha, já que você não pode fazer a mesma coisa a vida toda. Mas, tecnicamente, se for possível criar um vácuo para mim e me dar um período de três ou quatro meses para somente jogar xadrez, posso definitivamente voltar. Só que ao mesmo tempo, há tantas outras coisas na minha cabeça. Ainda que você possa dizer que estou fazendo uma espécie de retorno ao trabalhar com Magnus e acompanhando as partidas e ficando nervoso e tudo mais. Eu lembro de uma vez que estávamos em Moscou aguardando nosso voo para Cingapura. Eu tive um tempo para olhar o começo de sua partida contra Ponomariov e eu pensei "Ahh!"... não gostei do que ele fez. Se minha esposa e eu tivéssemos saído na hora programada, eu teria passado as próximas 10 ou 11 horas pensando sobre a posição e imaginando o que teria acontecido. Mas devido ao atraso do voo, no momento de partir eu já havia visto os lances seguintes no avião pelo celular do meu primo. Magnus jogou Db3 quando o comissário disse para desligarmos nossos telefones. E eu disse à minha esposa para não se preocupar, no próximo lance ele vai sacrificar em e6 e esmagar Ponomariov. Isso é bom. O atraso foi ótimo. E, ainda, na última partida, fomos ao restaurante e perdemos a abertura da partida com Leko, que não foi muito boa. E então, quando ligamos o computador e Leko jogou Td7, Magnus seguiu com Tg4 e eu disse à minha esposa que achava que Magnus estava então virando o jogo e iria ganhar. E ele ganhou.

EL: E sobre retornar ao tabuleiro para enfrentar um computador num match?
GK: Não, não. Eu não tenho interesse algum em voltar para qualquer tipo de xadrez competitivo. Eu poderia jogar em uma exibição, mas não contra um jogador da elite, porque, você sabe, minha vida está agora em outro caminho.

EL: Entendi. Sua vida está agora em uma trilha bem diferente, com prioridades diferentes. E, tenho certeza, sua família também é uma das suas prioridades. Como você divide o tempo entre sua agenda de trabalho e sua família?
GK: Família? Estamos sempre viajando. Bem, é complicado, mas temos 24 horas no dia, se as dispendermos inteligentemente está tudo bem. Você tem que planejar bem. As viagens são extensas, é claro. Ficamos juntos em Moscou e quando viajamos ao exterior, passamos um tempo em Nova Iorque, está tudo certo. É preciso ser apaixonado por tudo que se faz, então as coisas ficam sob controle.

EL: Antes você mencionou que seu filho não joga xadrez. E sua filha?
GK: Ela tem 3 anos - Aida tem três anos. Achamos que ela pode acabar jogando porque ela já demonstra muita curiosidade pelas coisas com que estou envolvido.

EL: Na política, você já se definiu como alguém conservador economicamente, ainda que social-liberal com preferência a juros baixos. Qual figura política influenciou seu pensamento?
GK: Eu não acho que usar clichês ideológicos vá funcionar. Sim, sou social-liberal. E sim, sou pró-escolha [movimento que defende a liberdade da escolha da mulher a respeito de sua maternidade - n.t.]. Mas também acredito que resolver problemas exige que você seja flexível. Na Rússia, por exemplo, você tem que ser algo esquerdista em termos de oferecer potenciais soluções para o país. Eu admiro pessoas na história que puderam fazer a diferença, como Winston Churchill, e aqueles que puderam ver as mudanças se aproximando e puderam firmar-se contra a opinião pública dominante para defender seu ponto de vista. Hoje, o problema da política moderna é que as pessoas se baseiam na conveniência ao invés de apoiar rupturas inovadoras ou decisões estratégicas de longo prazo. Não é falta de visão. Elas tem visão, se quiserem, mas é perigoso porque se elas tem a visão, elas tem que firmar e defendê-la. E isso é o que políticos não gostam. Eles são balançados pela opinião pública. E eu acho que o que é necessário hoje não é seguir, é liderar.

EL: Vamos fechar essa sessão de Bisik-Bisik com uma última questão: o que você acha do futuro do xadrez Fischer Random, do xadrez Seirawan ou outras variações do xadrez?
GK: Eu sempre gostei da idéia de escolher algumas posições. E eu não acho que se precise mais do que 15 ou 20 das 960 posições aleatórias possíveis, muitas das quais violam nossa noção geral de geometria no xadrez. Qualquer mudança na posição é um desafio, mas 10, 15 ou 20 posições podem ser escolhidas e acho que no futuro, a cada ano, deveríamos começar a partir de uma posição nova. Deveria ser uma posição apenas. Acho um insulto o fato de os jogadores terem de começar a partir de algo totalmente ridículo, e você tem 3 minutos para preparar... Quero dizer, xadrez também tem algo de pesquisa. Você não quer que seja eternamente a mesma coisa, tudo bem. Mas você tem um ano para jogar uma posição, o que significa que os jogadores podem se adaptar e podem pesquisar. Então você teria pelos menos 5, 6 lances de abertura que são teoria agora e então parte para outra posição. Mas se você quer simplesmente eliminar tudo e chamar de pureza - não, não é pureza, é absurdo. Então, novamente, existe algum sentido nisso, mas é preciso ser razoável.

Fonte: ChessBase