Entrevista com
Sergey Karjakin
Por Segodnja Sport
Tradução de Daniel Brandão
Ele se tornou Grande Mestre aos 12 anos e 7 meses (o mais jovem da história). Sergey Karjakin, que recém completou vinte anos, é 10 meses mais velho que Magnus Carlsen, o atual líder no ranking mundial. Na revista Segodnja Sport o ex-ucraniano, que agora vive e joga pela Rússia, nos fala sobre sua vida profissinal, casamento e vida em Moscou.

Sergey, na lista de ratings de janeiro da FIDE você aparece como russo. Como você se sente ao obter uma nova nacionalidade enxadrística?
- Foi só uma formalidade, porque eu já sou um cidadão russo, e tenho vivido em Moscou ultimamente. Então não foi nada de inesperado.
Mas essa formalidade lhe dá o direito de jogar na equipe russa.
- Eu queria muito jogar na equipe russa no campeonato mundial por equipes, que começa essa semana na Turquia. Mas por causa de algumas regras, detalhes que eu não conheço, eu ainda não tenho o direito de jogar pela Rússia. Eu espero obtê-lo até o final do ano para a Olimpíada em Khanty-Mansisk.
Como os jogadores ucranianos reagiram a essa mudança?
- Eles foram perfeitamente compreensivos, porque a situação na Ucrânia é completamente sem esperanças. Por exemplo, todos os jogadores ucranianos foram excluídos da lista de 1º de janeiro da FIDE porque a Federação não quitou suas obrigações com a FIDE.
Sergey, como é voltar pra casa como um estrangeiro?
- Nada mudou. Eu ainda volto pra casa, eu conheço alguns guardas de fronteira do Aeroporto de Simferopol, que me dizem que fiz a coisa certa me mudando. A verdade é que muitas pessoas entendem e me apóiam.
Como você está se situando em Moscou?
- Estou alugando um apartamento de dois dormitórios no centro da cidade. Eu o achei por meio de um amigo, por isso não é muito caro. Mas eu espero que em breve terei meu próprio lugar em Moscou.

Foi difícil se adaptar ao ritmo de metrópole, depois de viver em Simferopol?
- Foi, mas sempre achei interessante estar em cidades grandes. Minha esposa é de Kiev, portanto eu vivi lá. Mas Moscou parece grande mesmo comparada com Kiev.
E você experimentou os famosos congestionamentos de Moscou?
- Sim. Depois que eu ganhei o torneio classificatório para o mundial de Blitz, um amigo me ofereceu uma carona em seu carro até minha casa. Nós gastamos duas horas e meia em engarrafamentos. Depois disso comecei a andar pela cidade de metrô ou a pé. Eu gosto de caminhar e apreciar a vista.
Você já tem alguns locais favoritos?
- O restaurante geórgio "Genatsvale an Arbat". Eu nunca comi shashliks tão bons em lugar nenhum. Mas o restaurante é muito caro, então eu não vou lá tão seguidamente, só após algum sucesso especial. [Nosso tradutor do russo candidamente aprova o gosto de Karjakin por restaurantes. Genatsvale era um dos favoritos de Steve Giddins quando este vivia em Moscou]
Sergey, no verão você casou com sua colega, WGM Ekaterina Dolzhikova. Como isso mudou sua vida?
- Enquanto antes eu viajava aos torneios com meus pais, hoje vou com minha mulher. Ela me apóia e, como ela fala inglês muito bem, pode às vezes resolver problemas que surgem.

Como você divide responsabilidades domésticas?
- Katya cozinha e faz um espaguete à bolonhesa particularmente bom. É meu prato preferido. Eu faço as compras, limpo e geralmente tento ajudar. Mas, essencialmente, o trabalho doméstico fica com minha esposa.
Você ainda não pensou em começar uma família?
- Ainda é muito cedo para isso. Mas eu tenho um irmão de dois anos de idade. Seus pais o trouxeram para mim, então posso dizer que já fiz um curso em como ser pai.
Como seus planos com o xadrez se modificaram depois da mudança?
- Comecei a trabalhar com treinadores bem conhecidos. Essa foi a principal condição para a mudança. Eu disse: se você quer que eu vá, me dê os melhores treinadores. Em Moscou sempre há sessões de treinamento, oportunidades para trocar experiências. É o que falta na Ucrânia.
Você tem obrigações para com a Federação Russa de Xadrez?
- Não me impuseram nenhuma condição. Ninguém pode prometer se tornar campeão do mundo ou vencer vários super-torneios em sequência. Mas por outro lado dinheiro foi investido em mim e é preciso justificar essa confiança.
No que você está trabalhando no momento?
- No xadrez contemporâneo, a abertura é muito importante. É preciso procurar novas idéias, soluções humanas para as posições. Talvez elas não sejam as mais fortes mas você precisa forçar o oponente a trabalhar com sua própria cabeça, não apenas lembrar de variantes de programas.
Como você reage ao fato de Kasparov estar treinando Carlsen? Muitos consideram que você e Carlsen estarão num futuro próximo competindo um contra o outro pelo campeonato mundial.
- Eu estou certo de que Magnus vai se beneficiar muito com essa cooperação com Garry Kimovich. Mas eu penso mais sobre mim mesmo. Estou estudando com o treinador do Kasparov, Dokhoian, e já aprendi muito com ele. E as histórias sobre minha infindável rivalidade com Carlsen são realmente invenções jornalísticas. Eu não considero Magnus meu principal rival.

Você já perdeu o ciclo de qualificação para o campeonato do mundo. Talvez após sua mudança para a Rússia Illyumzhinov vá lhe convidar para o torneio de Candidatos especialmente, como uma grande esperança do xadrez russo?
- Eu duvido muito disso. Há muitos candidatos. Mas se Illyumzhinov abrir a porta, não vou dizer "não", e ficarei muito grato a ele. Mas, por ora, a meta que tracei para mim é chegar ao top 10 na lista do ranking mundial.
Fonte: ChessBase



