Um inventário inglório

Por Leo Batestti
Tradução de Daniel Brandão

Parece incrível, mas o estudo de Fabrice Tavroun é o primeiro nesse sentido. As tabelas (download no final do artigo) dão detalhes, federação por federação, do número de jogadores rankeados por nível de rating bem como o número de partidas valendo rating. Esses dados permitem compreender melhor a situação do xadrez atualmente. E poucos meses antes das eleições para presidência da FIDE, essa análise revela o penoso estado de nosso esporte no mundo.

Políticas elitistas

Imaginem se o futebol tivesse no mundo apenas jogadores da primeira e segunda divisão. É mais ou menos assim que está o xadrez, na grande maioria de seus 143 países.

Muitas federações praticam, efetivamente, políticas elitistas que ignoram jogadores amadores. O evolucionismo subjuga a política e só sobrevivem os mais fortes. Não há organização para a massa, há poucas competições e atividades específicas. Você sabia, por exemplo, que a Federação francesa é a única federação que organiza um campeonato nacional para jovens com mais de mil participantes?

A situação da Alemanha, país que lidera em número de jogadores rankeados, dá uma idéia: 8.394 jogadores com rating acima de 2000 e apenas 5.388 em todas as outras categorias juntas. A situação é mais drástica na Rússia, com escala de 8.813/3.610. A importância da elite russa deve ser avaliada em relação a sua população e número de partidas realizadas no país. Comparada com a França, os números são surpreendentes: 0.0088% da população russa contra 0.012% da francesa; e 18.114 partidas valendo rating contra 21.349 na França. Assim vemos os russos com rating acima de 2000 jogam esporadicamente. Mas então o que os seus 1501 titulados (GMs, MIs, e MFs) estão fazendo?

O mesmo pode ser observado em outro países. Nos Estados Unidos, por exemplo, só encontramos 297 jogadores com rating abaixo de 2000 em um total de apenas 2227. Mas os líderes nesse sentido são os chineses: apenas 398 jogadores rankeados e aproximadamente 9% deles estão abaixo dos 2000 pontos. Isso com uma população de 1.338.000.000!

Em uma escala global, as consequências dessa condução elitista são instrutivas: 42.894 jogadores tem rating acima de 2000, 32.460 tem rating entre 1800 e 2000 e apenas 19.888 jogadores no mundo tem rating abaixo de 1800! Importante notar que 17% desta categoria são da França e Espanha, quando os dez países com mais jogadores rankeados representam 67% desta mesma categoria. Essas duas federações possuem, efetivamente, a distribuição mais harmoniosa, com 3.628/6.434 e 2.751/5.282, respectivamente, na relação entre jogadores com rating acima e abaixo dos 2000 pontos de rating.

Fim dos mitos

Analisando essas tabelas, outros mitos caem por terra. A Turquia, que popularizou o xadrez nas escolas, está muito atrás. É a 25º colocada com apenas 1.056 jogares e 1.117 partidas valendo rating comparadas a 21.349 na França. Portanto, ter o xadrez nas escolas não é o suficiente para desenvolver nosso esporte. Estruturas de massa, conexões entre as escolas e clubes e organização em nível nacional são ferramentas indispensáveis – que, obviamente, são usadas por poucos países.

Considerações financeiras devem ser citadas, certamente, mas não são suficientes para explicar porquê entre 295.061 partidas valendo rating, 77% foram disputadas nos primeiros 20 países da lista (227.972). As deficiências estruturais ficam particularmente óbvias em regiões ricas e com tradição no xadrez: Estados Unidos (3.235 partidas), Reino Unido (1.487 partidas, menos do que Corsica com 2.167!) e Holanda (3.820). A campeã em partidas valendo rating é a Espanha (38.911), à frente da Alemanha (31.506) República Checa e da França.

Uma pseudo-democracia interna

As eleições da FIDE serão realizadas com um colégio eleitoral de 143 membros. Cada federação tem direito a um voto como, infelizmente, em outras federações desportivas. Assim, 50 países terão uma média de 28 jogadores cada (alguns com apenas 1 ou 5) e seus votos terão o mesmo peso de países como a Alemanha que vota por 13.782 jogadores ou a Rússia que vota por 12.423.

Ter representação deve ser um direito de toda a Federação, mas tamanha disparidade é uma afronta aos princípios democráticos. Na verdade, como já vimos, esse álibi dos direitos iguais serve apenas para manter um sistema de controle sobre federações que não existem na prática e cujos delegados vão às Olimpíadas como membros únicos - convidados, na maior parte das vezes, pelo então presidente.

Em relação a esse problema, algumas federações deveriam possuir um número mínimo de membros e clubes para distinguir um Membro da Federação de um Associado.

Parece que tal reforma seria uma oportunidade para dinamizar a FIDE. Mas infelizmente para os jogadores amadores essa estratégia não é utilizada pelos pelos atuais administradores da FIDE. Basicamente, a atividade da FIDE está focada na elite da elite. A ilusão de que as coisas estão funcionando vem da organização do ciclo de disputa pelo Campeonato Mundial. Durante a Assembléia Geral de 2006 em Turim, nenhuma uma linha, uma palavra sequer, foi direcionada à uma política geral para aumentar a base da pirâmide. O orçamento do xadrez nas escolas e juventude é ridículo quando comparado aos custos operacionais com organização de eventos.

A candidatura de Karpov para presidência da Fide deveria nos dar esperança. Já há bastante tempo o campeão russo percebeu a importância de desenvolver o xadrez nas escolas. Ele não criou dezenas de escolas ao redor do mundo? Isso é claramente um bom sinal Em regiões onde a estratégia de massa foi implementada a porcentagem de jogadores com rating abaixo de 2000 gira em torno de 90%. Imagine como seria o impacto internacional se houvesse mais de 400.000 jogadores rankeados!

Números importantes

Há 142 federações no mundo, com 116.362 jogadores rankeados. Os dez primeiros são: Alemanha, Rússia, Espanha, França, Índia, Polônia, Hungria, Itália, Tepública Checa e Sérvia;
Os primeiros 7 países da lista tem quase o mesmo número de membros dos 136 outros países juntos;
Os primeiros 20 países tem 85.439 jogadores rankeados, cerca de três vezes mais que os outros 123;
Os últimos 50 países tem 2.217 jogadores rankeados, cerca de 4 vezes menos que a França (8.033);
Apenas 26 federações tem mais do que 1.000 jogadores rankeados.

Agradecimentos ao Sr. Fabrice Touvroun, um jogador da região francesa de Var, por seu esplêndido trabalho de pesquisa que nos permitiu apresentar essas conclusões sobre os jogadores rankeados da FIDE ao redor do munto. Os números de sua pequisa estão disponíveis em Excel e PDF para download.

Fonte: Chessbase